Delegados responsáveis pela investigação revelam como operava a quadrilha e onde estavam as pessoas-chave da organização criminosa; prefeitura descarta ser investigada e advogada diz não ter participação no esquema

Os delegados Alessandro Albino, do Departamento de Polícia Metropolitana, e Marcelo Martins, do 24º Distrito Integrado de Polícia, da Polícia Civil do Amazonas, revelaram durante entrevista coletiva nesta sexta-feira (20), que a facção criminosa Comando Vermelho, estava infiltrada nos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário do Amazonas – com um ou dois servidores estando a serviço da quadrilha de narcotraficantes.
Segundo o delegado Marcelo Martins, dentro da Prefeitura de Manaus (Poder Executivo) operavam servidores ligados à Comissão de Licitação da Prefeitura de Manaus, ex-assessores parlamentares de três vereadores de Manaus e um motorista do Poder Judiciário, a serviço de uma desembargadora.
“São pessoas com acesso à informação e pessoas com cargos que eram chaves e estavam em claro auxílio ao crime organizado”, definiu o delegado (confira abaixo a lista dos presos).
Martins revelou que foram cumpridos 13 mandados de prisão, sendo sete em Manaus e seis em outros estados – a Operação Erga Omnes (Justiça igual para todos) está sendo realizada simultaneamente em São Paulo, Pará, Piauí, Ceará, Maranhão e Minas Gerais.
Como eles operavam
O delegado Marcelo Martins revelou que as investigações começaram após uma grande apreensão realizada em uma operação anterior, quando foram encontrados mais de 500 tabletes de maconha do tipo skunk, sete fuzis de uso restrito, duas embarcações utilizadas no transporte da droga, um veículo utilitário empregado na logística terrestre e aparelhos celulares. Um suspeito foi preso em flagrante na ocasião.
Um relatório do COAF (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) apontou à Polícia Civil do Amazonas onde havia movimentações financeiras muito altas, envolvendo servidores públicos em Manaus. O COAF é a Unidade de Inteligência Financeira (UIF) do Brasil, ligada ao Banco Central, responsável por monitorar, analisar e identificar operações financeiras suspeitas de lavagem de dinheiro ou financiamento ao terrorismox.
Durante quatro meses os investigadores checaram a movimentação e identificaram tanto os servidores públicos, quanto o líder que se disfarçava de pastor evangélico. Identificaram também a abertura de empresas fantasmas de logística que não levavam cargas legalizadas, mas drogas oriundas de Tabatinga para distribuir no restante do país.
Ao todo, foram expedidos 23 mandados de prisão preventiva e 24 de busca e apreensão. As ordens são cumpridas em Manaus e nas cidades de Belém (PA), Ananindeua (PA), Belo Horizonte (MG), Fortaleza (CE), Teresina (PI) e Estreito (MA).
“Elas (as empresas) não tinham nenhum negócio com outras empresas do segmento. Só com os traficantes e servidores públicos”, afirmou Martins.
Líder mentia ser evangélico
O delegado Marcelo Martins revelou também que o líder da organização em Manaus é Allan Kleber Bezerra Lima, que além de funcionário público se ‘travestia’ de pastor evangélico, tendo inclusive montado uma igreja no bairro Zumbi dos Palmares, onde se escondia e escondia as drogas traficadas.
“Era uma camuflagem social”, disse Martins.
Lista dos presos
A Polícia Civil divulgou os nomes das pessoas presas em Manaus e o motivo para as investigações:
1 – Núcleo de interface com estruturas públicas
Segundo a investigação, esse braço da organização atuaria na obtenção de informações sigilosas e facilitação de interesses do grupo. A decisão menciona indícios de acesso indevido a dados protegidos e possível cooptação de agentes públicos. Integram esse núcleo:
- Lucila Meireles Costa
- Izaldir Moreno Barros (motorista da desembargadora Nélia Caminha)
- Adriana Almeida Lima (CML)
- Anabela Cardoso Freitas (CML)
- Alcir Queiroga Teixeira Júnior
- Josafá de Figueiredo Silva
- Osimar Vieira Nascimento
- Nubia Rafaela Silva de Oliveira
2 Núcleo operacional do tráfico
Responsável pela logística e execução das atividades ligadas ao tráfico de drogas, o núcleo operacional seria composto por:
- Bruno Alexandre da Silva Candeira;
- Messias Daniel da Silva Alves;
- Daniel da Silva Sansereth;
- Carlos Victor Vieira da Silva;
- Luana Ferreira Tavares;
- Bruno Renato Gatinho Araújo;
- Ronilson Xisto Jordão;
- Bismarque de Souza Pereira.
Nota da advogada Anabela
O advogado da advogada Anabela Freitas, Raphael Grosso Filho, divulgou nota oficial informando que sua cliente não está ligada ao tráfico de drogas e a facções criminosas:
“A senhora Anabela Freitas informa:
- Que ela não possui qualquer relação com organizações criminosas ou com qualquer um dos investigados. Anabela é advogada, servidora pública concursada há quase 20 anos como policial civil e com reconhecida idoneidade. Nunca foi investigada ou processada anteriormente por qualquer crime, nem mesmo relação com qualquer investigado.
- Os esclarecimentos que teve de prestar tratam de compra de passagens aéreas para fins pessoais em uma agência de viagens local, que somente agora soube ser alvo de investigação na operação Erga Omnes.
- Repudiamos qualquer tentativa de polemizar midiaticamente e para fins políticos o caso, uma vez que a policial não possui qualquer vínculo ou benefício com o objeto das investigações. Qualquer afirmação diferente disto se trata unicamente de distorção da verdade.
Nota da Prefeitura de Manaus
A Prefeitura de Manaus também divulgou nota afirmando não ser alvo de investigações. Confira:
“A Prefeitura de Manaus esclarece que não é alvo da operação realizada nesta sexta-feira, 20/2, pela Polícia Civil do Estado do Amazonas. Conforme informado pelas próprias autoridades, nem o prefeito David Almeida nem a estrutura administrativa do município integram o objeto da investigação.
É inaceitável que setores da política tentem distorcer fatos para criar narrativas mentirosas e atingir a honra de quem tem trabalhado com responsabilidade pela cidade. A exploração oportunista de investigações que não envolvem a gestão municipal revela mais sobre os seus autores do que sobre os fatos.
A atual administração mantém compromisso absoluto com a legalidade, a transparência e o respeito às instituições. Qualquer servidor eventualmente investigado responderá individualmente por seus atos, nos termos da lei, sem prejuízo do funcionamento regular da máquina pública.
Manaus não pode ser refém de ataques especulativos nem de tentativas de desinformação. A verdade prevalece nos fatos, não nas insinuações”.
