Corpos que dançam, mundos que sentem: quando a arte é território vivo de inclusão, afeto e saberes 

Manaus

Através da dança, artes visuais e música, projeto realiza atividades com alunos da Educação Especial da Escola Cívico Militar Fueth Paulo Mourão, localizada na zona oeste de Manaus, durante a semana nacional da pessoa com deficiência intelectual e múltipla: um convite à reflexão, inclusão e combate a todo tipo de capacitismo ou preconceito

Em um cenário em que a acessibilidade na educação pública ainda enfrenta grandes desafios, a arte se apresenta como uma possibilidade direta de comunicação, estimulação cognitiva e pertencimento. Na Escola Estadual Cívico-Militar Fueth Paulo Mourão, no bairro São Jorge, em Manaus, o projeto “Corpos que Dançam, Mundos que Sentem” envolveu mais de 100 alunos do ensino regular e da educação especial Escola Estadual Cívico-Militar Fueth Paulo Mourão, no bairro São Jorge em uma experiência integrada de dança, artes visuais e música. Estruturada durante a Semana Nacional da Pessoa com Deficiência Intelectual e Múltipla, a iniciativa ocupou a sala de aula com cores, sons, movimentos e escuta, mostrando como a criação artística ressignifica o aprendizado e valida as diferentes formas de sentir o mundo.

Idealizado para acontecer durante a Semana Nacional da Pessoa com Deficiência Intelectual e Múltipla, o projeto “Corpos que Dançam, Mundos que Sentem” reuniu mais de 100 crianças e adolescentes da Educação Especial e do ensino regular. Mais do que uma sequência de oficinas de dança, música e artes visuais, a iniciativa também contribuiu para potencializar o trabalho de acessibilidade pedagógica desenvolvido na escola, através da criação e desenvolvimento de uma experiência sensorial única e compartilhada, que foi muito super bem recebida pelos alunos.

A ação foi viabilizada pelo Edital de Fomento Cultural Multilinguagens da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB AM), com apoio da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa e do Governo do Amazonas.

O encontro de linguagens e a quebra de barreiras

A programação foi desenhada de forma contínua e integrada. No primeiro dia, as oficinas de dança conduzidas por Rayssa Oliveira e Charles Alfaia convidaram os alunos a explorar o corpo que dança, a autonomia e o uso do espaço. No dia seguinte, as artes visuais assumiram a cena com as artistas Hadna Abreu e Gisele Riker, estimulando a comunicação não verbal por meio de texturas, tintas e experimentações táteis inspiradas na natureza e na Amazônia.

O auge do projeto ocorreu em 24 de agosto, quando um happening integrado uniu som, gesto e imagem em tempo real, transformando o ambiente escolar em espaço artístico de performance coletiva. Por fim, a oficina musical regida por Abner Viana e Matheus Gondim encerrou o ciclo utilizando ritmo e escuta ativa como ferramentas neuropsicopedagógicas.

“A arte não tenta padronizar corpos ou comportamentos; pelo contrário, ela valida a singularidade de cada estudante. Quando oferecemos dança, música e pintura a uma criança da Educação Especial em um espaço de convivência com a educação regular, estamos dizendo a ela que sua forma de sentir o mundo é legítima e necessária. O corpo que dança aqui é um corpo que reivindica seu direito à presença”, destaca Rayssa Deschain, artista, professora, doutoranda pela UEA e coordenadora do projeto.

Inclusão real: quando a sala de aula se expande

Um dos pontos de destaque da iniciativa foi promover a convivência direta entre alunos da Educação Especial e do ensino regular ou típico, quebrando estigmas a partir do fazer artístico conjunto — por meio de conceitos de arte, ritmo, dança, música, desenho, cores,  escuta coletiva e pertencimento — que serviram como fio condutor para as atividades.

Para o músico, pesquisador e neuropsicopedagogo Abner Viana, a resposta dos estudantes reforça o impacto neurocognitivo e social da abordagem artística na rede pública de ensino:

“A música e o estímulo rítmico funcionam como pontes diretas de comunicação para alunos com deficiência intelectual ou múltipla.Vimos crianças que raramente se engajavam em atividades coletivas encontrarem na música, uma forma de expressão. A neuropsicopedagogia aliada à prática musical mostra que não há limites para a aprendizagem quando o canal de acesso é o afeto e a sensibilidade.”

O legado pedagógico e o olhar para o futuro

Além das memórias afetivas registradas pelos estudantes e professores, o projeto gerou um acervo fotográfico e audiovisual produzido por Álvaro Mello, além de uma coordenação pedagógica estruturada por Elton Zhaga. O objetivo agora é transformar os registros em materiais de memória pedagógica que possam servir de referência para a aplicação de práticas inclusivas em outras escolas da região e também expandir o projeto em 2027.

A artista visual Hadna Abreu reflete sobre o poder transformador das artes plásticas no contexto amazônico:

“Trabalhar as artes visuais com essas crianças foi um exercício de redescoberta do próprio olhar. O objetivo ali não era  utilizar formas prontas, cores e uma porção de materiais, mas conduzi-las a uma conexão com o território. O resultado não foram apenas telas pintadas, mas sorrisos de quem percebeu que pode criar, intervir e ressignificar o espaço onde vive através da arte.”

Com o encerramento do projeto, a Escola Estadual Fueth Paulo Mourão preserva mais do que registros nas paredes: deixa a marca de que a educação especial no Amazonas pode — e deve — ser um território vibrante de criação, acolhimento e cidadania.

Ficha Técnica e Créditos

  • Projeto: Corpos que Dançam, Mundos que Sentem – Vivências inclusivas na educação especial
  • Coordenação e Equipe Artística: Rayssa Deschain, Abner Viana, Hadna Abreu e Pablo Araújo
  • Colaboradores: Charles Alfaia (Dança), Riker Gi (Artistas Visuais), Matheus Gondim (Música)  e Elton Zhaga (Coordenação Pedagógica)
  • Identidade Visual: Arthur Old 78’s
  • Registro fotográfico e audiovisual : Álvaro Mello
  • Fomento: PNAB AM / Edital Multilinguagens (Edital nº 09/2025) – SEC-AM / Governo do Estado do Amazonas
  • Informações e Redes Sociais: @mundosquesentem

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